Nosso “mutismo” de cada dia.

 

Diadema, 10 de junho de 2014.

 

Caras pessoas na sala de jantar,

Na Pedagogia do Oprimido [1], ainda, lendo Paulo Freire, o mestre fala-nos sobre o “mutismo” do povo brasileiro a partir da ditadura, do golpe civil e militar. Não sou uma cientista política. Falo mesmo como uma insurgente. Uma insubmissa. É o que sou. Voltando à questão, o povo entra em um período de estagnação sócio-educativo, ou seja, todo processo de transição democrática anterior é barrado pelo sistema opressivo, que nossos avós viveram. Todas as incursões feitas pelo país por educadores como Paulo Freire, políticos como Brizola, são extirpadas. Estas vozes são abafadas aqui, e passam a ecoar fora do país. Os que ficaram foram silenciados pela tortura e morte, pelo silenciamento, pela clandestinidade. Freire nos diz em seu belíssimo livro A Pedagogia do Oprimido que o povo brasileiro passa a sofrer de um “mutismo”.

Paulo Freire

Paulo Freire [2]

Hoje, lendo comentários de leitores em jornais de grande circulação, on-line, vejo a perversidade do “mutismo” que a ditadura causou na geração anterior a nossa, a geração de nossos pais. Sempre peço perdão pela generalização. Mas, a geração de nossos pais, a geração de 1950, criada numa espécie de redomada do regime opressor, cuja cartilha seguiu, sendo doutrinada, só começa a ver agora o terror que estava ao seu lado. Quando não contribuiu com ele. Vejo postagens, em redes sociais, de memes, da geração de seus filhos, sobre “a minha infância”, a “ideal infância”, “aquela na qual vivia livre sem violência”, ora mxs carxs, na sala de jantar, a violência estava nos porões, bem antes, “comia solta” nos morros e periferias das cidades. Minha mãe, que tinha seus vinte anos na década de setenta, anos de encrudescimento, diz “que não sabíamos sobre o que acontecia, a televisão não mostrava, éramos alienados”. “Éramos!”. Quem? Grande parte da sua geração, nossos pais, hoje, avós de nossos filhos, com quem passam muito tempo, porque a nossa geração “trabalha muito”, passa muito tempo fora.

Então, volto ao mestre Freire, que nos deixou caminhos para uma educação para a liberdade – será que a queremos? – e ao mesmo tempo, sinalizou sobre este tempo, tempo em que o povo está mudo pelos processos de opressão que passou, pela educação tecnicista, “bancária” que teve. Este povo está nas ruas, diariamente, reclamando que não pode pegar um ônibus, apavorado, porque está com medo de perder seu trabalho. Se perde seu trabalho não pode comprar. É o que somos, consumidores. Isso nos define. Se pensarmos que milhares foram silenciados nos porões da ditadura e ainda são torturados e mortos em favelas para que hoje sejamos somente consumidores aos olhos dos representantes políticos e dessa mídia que está aí, então, o projeto da ditadura venceu.

Xs trabalhadorxs, filhxs e netxs, daqueles que não sabiam nada sobre a ditadura, educados por professorxs que também nada sabiam e que hoje morrem de medo de perderem seus empregos, não sabem que na verdade aqueles que temem não são seus patrões, são seus subalternos, quem dá lucro para a empresa é quem compra, quem paga a empresa é quem compra seus produtos, quem paga o funcionamento do Estado é quem paga imposto, impostos que as empresas pagam ao Estado porque os trabalhadores compram o que se produz nelas. Então, os representantes políticos, que pensam que são “patrões”, porque o povo alimenta essa crença, também são subalternos dos trabalhadores. Será que o trabalhador não sabe disso mesmo? Não reflete sobre este pacto?

Mas a educação que xs trabalhadorxs recebem na escola é tão perversa, que nela aprendem que são subalternos, que sempre serão. Andar em fila, obedecer xs adultxs, só obedecer. Não fazer críticas, não questionar, seguir um padrão de comportamento, não poder escolher ou propor o currículo, ou se precisamos mesmo de um, tudo isso é o projeto da educação opressora, sistematizado pela geração de nossos avós, grande parte deles, nos deixou como norma. Então, morremos de medo, e como pessoas que devem temer obedecemos, eles aprenderam assim, ou oprimiam assim, e passam o medo – a subserviência – a quem deve temer e ensinam a oprimir para os que pensam que são “patrões”.

Quando leio os comentários rasos em redes sociais e escuto nas ruas pessoas os que tiveram letramento na década de 80 e 90, do século passado, vejo quão pernicioso é o projeto da ditadura, como a formação delas é superficial a ponto de “demonizar” um trabalhador que luta por seus direitos, lutando ao mesmo tempo pelos meus, pelos nossos.

Aqueles homens de farda sabiam que em longo prazo isso aconteceria, senão não teriam ficado tanto tempo. Aquelas mulheres de classe média, muitas estão mortas, quando marcharam, elas mar-cha-ram, sabiam que seu esforço valeria a pena, deixaria a maior parte do bolo, pelo menos até o advento da classe C e antes da crise de 2008, para as suas famílias. Sobretudo, a melhor educação é para seus descendentes, mesmo com as universidades públicas “sucateadas”. As universidades públicas também estão em greve. Mas isto não afeta o povo? Os pobres não vão chegar nela. Mas, não é ele quem paga por elas?

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Anúncio Marcha pela Família de 1964 [3]

Como disse, no início, não sou especialista, são reflexões que me atravessam. São reflexões que me fazem ver que a coisa segue para o “é assim e sempre será”, como nossos avós aprenderam. Pelo menos, a cultura de doutrinação, do medo, me faz ver assim, que um grupo grande sempre precisará de um grupo menor para comandar, dando-lhe poder para decidir sobre sua vida e sua morte. Sei que não é simples como escrevo, são milênios de dominação, opressão, disputas, mortes. É carnificina. A colonização que está na base de nossa cultura e nos divide serve para ilustrar, ela remodelou-se na ditadura, na qual negros e índios foram massacrados. Poucos falam disso e quem fala é silenciado. Porque a dor também tem protagonistas. Não?

O que precisa acontecer para que a pessoa oprimida que “morre de medo de perder algo”, veja que ela, em sua conivente ignorância – será que é possível dissimular ignorância? -, e fanatismo, promove a desigualdade e a violência na qual vivemos? Em que momento, veremos que deixar professores, motoristas e metroviários sozinhos nas ruas estamos permitindo que o Estado massacre trabalhadores, como nós. Talvez este seja o problema, estes “vândalos” ficam mostrando a nossa indolência, o nosso comodismo. Por que não aceitam as coisas como são, como a maioria de nós aprendeu? É como sempre foi.

O país sofre com uma “síndrome de alienação” iniciada pelas cartilhas de doutrinação na ditadura, não discutida com a nova LDB. São muitas questões. Antes, me sentia mal por fazê-las em meio ao mar de ignorância em que vivemos pela falta de cuidado e seriedade com a educação no nosso país. Somos responsáveis por ela. Somos responsáveis pelo sistema penitenciário do nosso país, somos responsáveis pela criminalização da pobreza, somos responsáveis pela criminalização da juventude pobre. Somos responsáveis pela alienação e crise de valores em nossa sociedade.

marcha pela família

Lembrar é resistir [4]

Quem sabe a leitura de Paulo Freire seja tão importante daqui a 100 anos como as páginas de caderno de esporte que vejo colorir o ônibus de manhã. Debater política não seja um tabu como sexo e escutar – apreciar de verdade – a fala de uma criança seja prioridade tanto quanto é assistir novela, hoje. Ou ver e postar bobagens em redes sociais. Quem sabe xs professorxs sejam pessoas especiais novamente, tratadas de forma especial, mas, com a humildade, bom senso, respeito e competência como critérios em sua formação, como descreve nosso mestre Freire.

Sei que há poucxs, como Freire, mas desejo que continuem trabalhando para barrar a peçonha do fascismo que se esgueira por aqui, de novo, de novo, porém, com maquiagem de processo democrático.

Sem TV há 1 ano,

Rosa Correa da Silva.

 

 

Agradeço profundamente xs professorxs e militantes políticos que tiveram a ousadia de pensar livre, pautaram-se na autonomia em seus trabalhos, para que eu possa, pelo menos, esboçar uma reflexão sobre a inquietante vida em sociedade.

Obs.: Aprecio o diálogo, mas não gosto de valentonas e de valentões. E, se for para “coxinhar”, por gentileza, indico que escreva nos comentários da Folha de São Paulo ou da Veja.

Texto em pdf <Às pessoas na sala de jantar. revisado 10.06.2014>

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[1] “Pedagogia do Oprimido” [Paulo Freire]. Disponível em <http://www.dhnet.org.br/direitos/militantes/paulofreire/paulo_freire_pedagogia_do_oprimido.pdf>. Jun de 2014.

[2] Imagem disponível em <http://www.pucsp.br/paulofreire/>. Jun de 2014.

[3] Imagem disponível em <http://blogs.estadao.com.br/reclames-do-estadao/2014/03/19/ha-50-anos-a-polemica-marcha-da-familia-com-deus-pela-liberdade/>. Jun de 2014.

[4] Imagem disponível em< http://grumpy-lady.tumblr.com/post/53511011389/marcha-da-familia-com-deus-pela-liberdade-e-um>. Jun de 2014.

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Sobre ter direitos, sobre ocupar espaços prioritários…

Estava pensando em um bom assunto para começar. Não pretendo que esta seja uma página sobre moralismo, ou julgamentos, já têm bastante gente que faz isso. Meu desejo é con-versar, compreender questões, compreender, por exemplo, porquê uma pessoa senta em um banco de ônibus com uma indicação de prioritário e ao ver que há um usuário preferencial finge que não vê. 

Ao ver isto, hoje, mais uma vez, no ônibus, pensei, mais uma vez, sobre direitos. Uma pessoa que não respeita o direito do outro não sabe de seus deveres, não sabendo de seus deveres sabe pouco, então, de seus direitos. Conforme tira o direito do outro está tirando o seu. Há muitas teóricas e teóricos que falam a respeito disso. Bem, vou procurar lê-los para melhor con-versar com eles. 

Obs: fiquei tão nervosa ao ver que dois jovens não saiam do lugar preferencial que ofereci o banco em que estava. O senhor não quis, ficou parado ao lado dos dois para ver se eles se “mancavam”, nada. Foi desolador e ao mesmo tempo é difícil controlar a TPM numa situação dessas, bem, o senhor com toda a sua sabedoria e vivência me acalmou. Precisamos de muita calma.

 

E você, pessoa na sala de jantar, o que pensa?

 

Aceito críticas, correções de texto e tomar um café, contudo, não aceito valentonas e valentões.

 

Rosa C S. 

28 | 05 | 2014

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